Virar a página e mudar subtilmente de capítulo. Mais tarde ou mais cedo acontece, mas preciso sempre ganhar alguma vantagem sobre os meus demónios, sob o risco de, não o fazendo, dar por mim assombrado de assalto por eles, assim inesperadamente. No terreno lamacento é sempre preciso olhar com atenção a ver onde pomos os pés, não vá uma pessoa escorregar e mergulhar de cabeça.
Algo que a vida me ensinou foi que o tempo dá lugar às coisas, põe-as no sitio, revela-lhes a razão. Disseram-me um dia: Quando o mundo inteiro está errado, e tu é que estás certo, desconfia!
É o Tempo. É sempre o tempo. E enquanto esperas que ele te salve e cure a tua doença, não percebes que corrói. Desgasta. Apodrece-nos por dentro como uma maçã esquecida na mesa de cabeceira.
Apesar de tudo o que com Ele se afunda, uma coisa é certa, é Ele que traz à razão à tona.
A mão procura a mão. O moribundo encosta a cabeça, pesada e leve, no
peito da culpa. Como falar do medo de ficar só? Não voltar nunca, é esse o amor.
Não olhar para trás, para as coisas acabadas. Como falar? Tantas coisas. As pala-
vras são uma prisão. Onde está a normalidade da vida? O hálito a queimar-me
os dedos. Uma delicadeza infinita, neste momento. « I'm not leaving. »
« Give-me your hand. » O sol é venenoso.
Rui Chafes - "O Silêncio de…"
segunda-feira, 28 de novembro de 2011
Cheguei a Lisboa no dia 31 de Janeiro de 2008. Trazia comigo uma mala de sonhos e desejos, e este álbum no mp3. Durante o mês de Fevereiro, vivi numa casa que não era a minha. Que não me pertencia. Que não tinha o meu nome em lado algum. Aprendi um caminho e uma rotina que não eram os meus. Um percurso. Todas as noites chovia. Muitas vezes durante o dia também. Lembro de um quarto com uma janela pequena, por onde mal conseguia espreitar e onde ouvia passar os autocarros da carris, dia e noite, e o trânsito de uma cidade que ainda não era a minha. Acho que nunca chegou a ser e provavelmente não será dia algum. Ouvir esta música traz-me muitas memórias. Memórias que justificam, àqueles que não entendem que lhes diga: o White Chalk é sem duvida o meu album preferido da PJ. Ouvi-o dia e noite durante aquele mês..
Quero apesar disto agradecer o mês de Fevereiro de 2008 à Silvia, que cuidou de mim como pôde, me acolheu e de alguma forma me salvou, mesmo sem saber.
Hoje chove-me nas maçãs do rosto e aperta-se-me o peito de uma angústia que não posso contar, e entre outras tantas coisas, revejo mil imagens daquele mês. Hoje a insónia sabe-me a este giz branco, por isso deixo-o aqui apontado, como quem queima com um ferro, para jamais esquecer, do que realmente me cobre e me abraça.
A palavra que carrega consigo a faca que se espeta no peito enquanto nos aperta a garganta. Mas não nos atira ao chão ou contra a parede. É uma injecção intra-venosa de luz branca nos pulmões que nos rouba o espaço ao ar.
sábado, 26 de novembro de 2011
Gostava de escrever, agora, sem qualquer tipo de significado subjacente, sem qualquer tipo de conotação subliminar. Sublime.Desprendido. Sem o peso do "e se...". Sem os segundos significados e as interpretações. E não é não saber, é não poder.